Oito Reflexões

Alexandre Zaghetto

Na primeira vez em que compareci a uma formatura na UnB não foi na condição de professor. Eu estava aí onde vocês estão. E uma das coisas que mais me chamaram a atenção foi a indiferença dos que não estavam diretamente envolvidos aqui na cerimônia de colação de grau.

Do lado de cá, como hoje, estavam presentes o reitor, coordenadores de curso, chefes de departamento, diretores de instituto, professores, funcionários, etc. Mas isso em nada parecia inspirar qualquer tipo de respeito por parte de parentes e amigos. Não digo respeito pelos títulos em si, mas pelo esforço que aquelas pessoas haviam feito para que a Universidade pudesse permanecer de pé durante o tempo em que os formandos eram apenas alunos de graduação. Essa mesma Universidade que naquele momento estava sintetizando em um diploma anos de dedicação de professores, alunos e funcionários.

Por isso, esta é a primeira reflexão que eu gostaria de fazer hoje. E ela é sobre o respeito e a gratidão.

Treinamento técnico vocês tiveram o suficiente aqui na Universidade, mas são os padrões ético-morais que definem o caráter de uma pessoa. Muitas situações de decisão difícil se apresentarão a vocês e, acreditem, nossa mente é suficientemente astuta para encontrar justificativa para tudo. E decidir pelo que não é correto, quando conveniente, pode tornar-se fácil. Principalmente se o ambiente onde nos encontramos se apresenta com algum grau não desprezível de desorganização, como é o Brasil. E eu estou falando de corrupção no sentido mais amplo da palavra.

Assim, esta segunda reflexão é sobre a firmeza de caráter e a honestidade.

O Brasil apresenta uma série de desafios. E estes desafios só podem ser vencidos se colocarmos nossa criatividade em ação. Mas não a pseudo-criatividade, esta que as vezes é atribuída ao nosso povo e que eu chamo de criativitite.

Pensar fora da caixinha é mais difícil do que parece. Einstein certa vez disse: “Nenhum problema pode ser resolvido pelo mesmo grau de consciência que o gerou”. Por isso, precisamos conduzir nossa criatividade a patamares mais elevados, a “uma atmosfera forte”, como diria Nietzsche.

A geração atual acredita ser toda formada por gênios, bastando apenas ao mundo reconhecer sua genialidade. A verdade, porém, não é essa. Para se enfrentar os problemas graves do Brasil, “é preciso estar preparado para as alturas (…)”, onde “próximo está o gelo” e “atroz é a solidão”. Em outras palavras, o Brasil pode ter seus problemas minimizados, mas apenas se dedicarmos o tempo necessário subindo ao cume da montanha de onde poderemos respirar o ar rarefeito das alturas e a partir de onde teremos condições de vislumbrar as soluções necessárias.

A terceira reflexão, então, é sobre o esforço e a dedicação.

Se destinarmos algum tempo combatendo em nós mesmos qualquer tendência à alienação, perceberemos que há coisas que exigem mudança imediata. Brasília é a unidade federativa com o maior PIB per capita, o menor índice de analfabetismo, a maior expectativa de vida e o maior índice de desenvolvimento humano do Brasil. Além disso, a UnB está entre as 10 melhores universidades do Brasil. Considerando que a solução para um problema significativo deva ser apresentada, de quem vocês acham que essa solução teria mais condições de surgir?

E isso é refletir sobre a responsabilidade, a habilidade de estar pronto para responder a uma demanda.

A Índia esteve por um longo tempo sob o domínio colonial do Império Britânico. Durante esse período, os indianos foram até mesmo proibidos de extrair sal em seu próprio país. Numa manifestação que ficou conhecida como a Marcha do Sal, Mahatma Gandhi, o grande responsável pela independência da Índia, caminhou pacificamente por 400 km durante 25 dias em direção ao litoral e mostrou aos milhares que o seguiram como fazer sal, desobedecendo às leis impostas pelos ingleses.

Observei com certa atenção as manifestações recentes dos estudantes em São Paulo contra a reorganização da rede escolar estadual. Fiquei me questionando o que será que teria acontecido se as manifestações se resumissem ao não comparecimento absoluto às aulas em vez de invasões, bloqueio de vias e confronto com a polícia?

Manifestações pacíficas, ponto que acabamos de evidenciar nessa quinta reflexão, não são necessariamente desfiles de carnaval fora de época. Elas podem ser inteligentes.

Em 2011 o mundo testemunhou um acidente nuclear em Fukushima, no Japão. Eu assisti, sem acreditar no que estava vendo, a um grupo de Engenheiros idosos, aposentados, na faixa dos 70 anos de idade, oferecendo-se para conter o vazamento na usina, assumindo o lugar dos mais jovens.

Esta sexta reflexão é sobre o sacrifício.

Em 2 de outubro de 1884, Vincent Van Gogh escreveu em uma carta a seu irmão Theo: “Eu prefiro morrer de paixão do que de tédio”. A paixão pode fazer do Engenheiro um artista, elevando a tarefa mecânica à categoria de obra de arte. A paixão faz do apaixonado alguém que se destaca em meio à multidão.

Viver de forma apaixonada é a sétima reflexão.

Oscar Wilde certa vez disse: “Não sou jovem o bastante para saber tudo”. Possivelmente estava se referindo à pressa com que via de regra muitos jovens julgam, sem a devida atenção, as situações que se lhes apresentam. Quando perguntamos a alguém “por que um objeto cai em direção à Terra”, a resposta que está na ponta da língua é emitida com indiferença e sem qualquer maravilhamento: “Por causa da gravidade”. É verdade. Mas o que é a gravidade?

É necessário observar com eterna inquietude e espírito investigativo cada fenômeno ao nosso redor. Dizem para NUNCA utilizarmos palavras como TUDO ou NADA. Mas já que essa própria regra faz uso da palavra NUNCA, ouso dizer que NADA no Universo deve tornar-se banal aos nossos olhos.

Sendo assim, a oitava e última reflexão é sobre a inquietude científica.

Eu tenho um desejo muito grande de ver as coisas melhorarem para todos nós.

Vocês podem dizer que eu sou um idealista, mas acreditem, eu não sou.

Assim, por tudo isso que foi dito, a última tarefa que eu peço como professor é: façam o diploma de vocês valer.

Obrigado e parabéns a todos.

Discurso proferido no dia 19/02/2016 na cerimônia de formatura dos alunos de Engenharia Elétrica, Mecatrônica, de Computação, Mecânica e de Redes da Universidade de Brasília.

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