Quem são esses, os inquietos?

Alexandre Zaghetto

 O que preparei para hoje poderia conter algo de humorístico. Talvez alguns de vocês, os que tiveram aula comigo, até tenham esperado por isso. Mas quando paro para escrever algo, costumo ficar observando as idéias que passam pela minha cabeça e ao identificar uma que me agrada, eu a formalizo em uma primeira frase e o resto é conseqüência. Parece que dessa vez meu daimon não estava muito para risadas. Talvez, devido ao excesso de piadas a que vimos sendo submetidos nos últimos anos, criminosamente elaboradas por aqueles que acham que temos “cara de panaca”, “jeito de babaca”, ou que estamos “com bunda exposta na janela pra passar a mão nela”. E é também por isso, por estarmos carentes de pessoas que tenham coragem para verdadeiramente moldar uma nova realidade, que faço hoje esse discurso.

 Quem são esses que se sentem como estrangeiros na terra em que nasceram? Acordam incomodados com a sensação de que dormiram além do que deveriam, imaginando que alguém já deve estar fazendo aquilo que eles gostariam de ter feito, apesar de não saberem exatamente o que. Sentam na beirada da cama junto à estante do quarto e folheiam as páginas de algum dos múltiplos livros lidos simultaneamente na esperança de encontrarem um pensamento que lhes indique a razão de ser. Ligam o computador para vasculhar os perfis dos amigos a procura de uma fotografia que lhes mostre o que nunca viram, uma boa notícia a respeito do que não deveria nem ter começado, ou explicações sobre aquilo que acabou de ser descoberto.  Antes de saírem para realizar suas atividades diárias, buscam algo para vestir e escolhem a roupa que primeiro vem à mão, fazendo desse momento um ritual que manifesta aos que os cercam: “Eu sou mais que superfície!”.

Quem são esses que querem falar a respeito de algo ainda desconhecido, utilizando palavras que ainda serão criadas? Escutam mais uma vez todos os discos da banda preferida em busca de alguma nota, alguma batida, algum verso perdido que não haviam escutado antes. Submergem em um jogo de computador e procuram exaustivamente por aquele item inexistente que, obviamente, nunca foi encontrado por qualquer outro jogador. Viajam de cidade em cidade, as vezes de país em país, em busca do lugar que lhes possa trazer sossego, voltando para casa com a impressão de que nunca foram. Devoram filosofias, freqüentam igrejas, tornam-se veganos, peregrinam à Índia, apegam-se a tudo aquilo que lhes possa libertar desse estado de inquietude; recusam-se, porém, a serem recolhidos ao asilo dos alienados.

Quem são esses que sentem saudade do que não conhecem? Entram em sala de aula e, por mais que esteja repleta de outros alunos, suspeitam que alguém está faltando. Prestam atenção no que o professor explica e a cada questão esclarecida, outras tantas se relevam, criando um labirinto que não tem fim.

Ficam acordados noite afora

Na esperança de serem surpreendidos pelo incógnito

Que o dia não foi capaz de lhes revelar

Freqüentam festas e mais festas

E por mais criativos que sejam seus títulos e atrativos

Estes estão aquém do que foram procurar

Namoram, e muito

As vezes um pouco mais

Procurando sanar com o outro

A saudade que sentem da parte desconhecida de si mesmos

Quem são esses que ao fazerem qualquer coisa sempre desconfiam que poderiam tê-la feito melhor? Matriculam-se em disciplinas e em mais algumas, e mesmo tendo feito todas as que deveriam, procuram por aquela última que lhes trará o conhecimento que falta. Investigam todos os lugares da Universidade em busca de um canto onde possam se sentir confortáveis, mas parece haver um incômodo constante que os empurra pelos corredores, pelas salas de estudo, pelos centros acadêmicos, pelos espaços vazios. E nesse constante não-estar, esbarram-se pseudo-aleatoriamente procurando pela conversa que desejam, mas que ainda não acontecerá.

Camille Claudel, a escultora francesa, disse: “Há sempre algo de ausente que me atormenta.” Quem são esses que se sentem como estrangeiros na terra em que nasceram? Que querem falar a respeito de algo ainda desconhecido, utilizando palavras que ainda serão criadas? Que sentem saudade do que não conhecem? Que ao realizarem alguma coisa, sempre desconfiam que poderiam tê-la feito melhor?

Quem são esses que, além disso

Não se conformam com a regra que poda sem razão

Com a autoridade que se impõe gratuitamente

Com a injustiça que impede o crescimento

Com a agressão que destrói o sonho nascente

São esses que aqui estão, ou lá estarão

Que sentem haver algo de ausente que os inquieta

Que os faz perder o sono, que os atormenta

Mas que também os faz moldar o mundo que falta

Dar forma às idéias que engrandecem

Definir o que nos direciona

Realizar melhor o que já foi feito

Pensar diferente

 

E com sua sede pelo que não há

Com os olhos atentos, olhando à frente

Como engenheiros e engenheiras levar o ser humano adiante

A um estado que ainda será.

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